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terça-feira, 18 de abril de 2017

Ruínas em filigrana

"Não esse género de ruína em que a alma das multidões apenas teve tempo de se petrificar, gravando o seu adeus na rocha, mas as ruínas em filigrana de todos os tempos, as banhadas pelo sangue nas nossas veias, aquelas que trazemos connosco em segredo sem nunca encontrarmos nem o lugar nem o instante convenientes para vermos: os inestimáveis escombros do presente (…)"

Kateb Yacine
«Nedjma»

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Like Liszt


"Kateb Yacine’s 1956 novel Nedjma is luxuriant and convoluted like Liszt, not deceptively simple like Mozart, but in my encounter with it I found myself in a position more like that of the amateur attempting Mozart: I read every word, but never felt I was more than a tenth of the way toward having read the novel. And yet not a page passed without my having the feeling that I was experiencing something great. (...)"

 Barry Schwabsky
"The Potential Novel of a Conceivable Algeria", Hyperallergic (19/02/2017)

domingo, 13 de julho de 2014

Chamada para comunicação no Colóquio Internacional 
Études katebiennes: Une esthétique de la modernité et une épistémologie
27 e 28 de outubro de 2014

"Os romances de Kateb Yacine – Nedjma e Le Polygone étoilé – serão assunto do colóquio internacional, organizado pelo departamento de Letras e Língua francesa da Universidade de Guelma, nos dias 27 e 28 de outubro de 2014. Esses dois romances estão entre os textos mais vanguardistas da literatura argelina há quase 70 anos. Eles renovaram a estética do romance por meio da escrita fragmentária, que é sua marca inigualável nessa época. Ignorando deliberadamente o consumado, o fechado, o totalmente edificado, o romance de Kateb Yacine privilegiou aquilo que o sentido e a história têm de inacabado e a abertura aos possíveis."
Trad. livre. Ler mais aqui.
Mais informações no site da Universidade de Guelma.

sábado, 5 de abril de 2014

Nedjma de Kateb Yacine dans le contexte des années 50


"La nouveauté majeure d'un texte comme Nedjma, en balayant le modèle descriptif hérité, était d'abord d'attirer l'attention sur le fait même de narrer, de produire un récit dans des normes de lisibilité surprenantes. Ce faisant, Nedjma pose l'existence d'une narration issue de l'espace culturel même dont elle se réclame. C'est ce que souligne la naïve introduction de l'éditeur, qui a ressenti le besoin de "naturaliser" en quelque sorte pour le lecteur français principal destinataire du roman en 1956, cette écriture surprenante. Et de façon fort révélatrice cette préface s'abrite derrière une différence supposée dans la conception du temps de la civilisation arabe par rapport à celle de la civilisation occidentale. C'est-à-dire qu'elle gomme l'étrangeté textuelle en la cachant derrière un exotisme de contenu censé l'excuser. Dans sa naïveté, cette préface au demeurant bien paternaliste montre d'abord que la provocation a réussi... (...)"

 Charles Bonn
Bruxelles, Revue de l'Institut de Sociologie.

domingo, 29 de dezembro de 2013

A propósito da 1ª publicação de «Nedjma»

"Desde a primeira tentativa de publicação, já se viam a particularidade e a originalidade da obra, muitas vezes não compreendidas pelo mercado editorial. Quando a apresentou para a editora Seuil, Kateb Yacine não imaginava ter que reduzi-la a 256 páginas, pois as 400 escritas inicialmente não condiziam com as normas impostas pelas editoras na época. Em 1956, Nedjma é publicado; extratos do manuscrito original são editados em Le polygone étoilé, dez anos mais tarde. Nota-se a curiosa disposição dos capítulos no primeiro romance: dividido em quatro partes de doze capítulos, há duplicação de mais doze capítulos nas terceira, quarta e sexta partes, composição que auxilia na quebra da linearidade narrativa e favorece os circunlóquios dos narradores. Muitas vezes, o enredo se apropria de acontecimentos que marcaram a história do país e a vida do autor, dando margem à voz de Kateb nas brechas narrativas dos protagonistas. (...)"
Melissa Quirino Scanhola
"A tessitura da nação argelina em Nedjma, de Kateb Yacine" 
USP | Área de Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês (2013), p.60

Poliândricas

“As cidades são como as mulheres fatais, viúvas poliândricas cujo nome se perdeu... Glória às cidades vencidas; não entregaram o sal das lágrimas, tal como os guerreiros não derramaram o nosso sangue.” 

Kateb Yacine
Nedjma, (1987), p.159

sábado, 29 de junho de 2013

À primeira vista




Por Jacqueline Arnaud:

Acabava de estourar a insurreição no inverno de 1954-1955, depois dos motins marroquinos e tunisianos que começavam a incendiar a África. Eu e meus amigos acompanhávamos as notícias nos jornais, participávamos de reuniões e manifestações contra a guerra. Em nome do que ainda era para mim anti-racismo abstrato, baseado no anti-colonialismo fundamentado em fatos contados e vividos na Indochina por pessoas que admirava.  
Então, numa noite desse mesmo inverno, meus amigos me levaram ao Collège Philosophique onde acontecia uma conferência-debate reunindo vários escritores magrebinos: Albert Memmi, Driss Chraïbi, Kateb Yacine. Este último, desconhecido fora de uma pequena roda, entusiasmado com o romance que acabava de escrever, Nedjma, falava alto, especialmente de um típico colono, o personagem Sr. Ricardo, como sendo vítima do sistema que o fazia explorador, mais inquieto por compreendê-lo que condená-lo. Escutando Kateb, a gente tinha a sensação de que nada estava perdido, apesar do começo da guerra, de que tudo poderia se resolver. Pouco depois, num café, onde alguns amigos se reuniram após o debate, Kateb continuava a contar sobre o livro, extasiado por seu mundo interior, pelas criaturas que o possuíam [...]  Tive a impressão de que naquele dia um mundo surgia para mim, cuja estranheza me fascinava. Ele nos mantinha sob seu charme. Ainda vejo e escuto nitidamente Kateb, a pequena veia batendo nas suas têmporas, na embriaguez de seu discurso torrencial, se curvando e se sacudindo de rir:

“Então Si Mokhtar percorreu as ruas de Constantina com uma mordaça na boca: Vive la France, les Arabes silence.”   

Todo absurdo da guerra da Argélia que apenas começava estava contido nas suas palavras.

Jacqueline Arnaud

La littérature maghrébine de langue française, 1986 (vol. I, II)  – tradução livre.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Uma pulga sentimental


Parti com os panfletos.
Enterrei-os na ribeira.
Tracei sobre a areia um plano...
Um plano de manifestação futura.
Deem-me essa ribeira, e bater-me-ei.
Bater-me-ei com areia e água.
Com água fresca, com areia quente. Bater-me-ei.
Estava decidido. Portanto via longe. Muito longe.
Via um camponês fincado como uma catapulta.
Chamei-o, mas ele não veio. Fez-me sinal.
Fez-me sinal de que estava em guerra.
Em guerra com seu estômago. Toda a gente sabe...
Toda a gente sabe que um camponês não tem espírito.
Um camponês é só estômago. Uma catapulta.
Eu cá era estudante. Era uma pulga.
Uma pulga sentimental... As flores dos choupos...
As flores dos choupos explodiam em penugem sedosa.
Eu cá estava em guerra. Divertia o camponês.
Queria que ele esquecesse a sua fome. Eu fingia de doido. Fingia de doido diante do meu pai o camponês. Eu bombardeava a lua na ribeira.
Kateb Yacine
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.48,49

Mas vós começais pelo fim


“O recolhimento e a sabedoria, isso é bom para os valentes que já combateram. Levantai-vos! Voltai aos vossos postos, fazei a oração no trabalho. Parai as máquinas do mundo, se temeis uma explosão; deixai de comer e de dormir durante uns tempos, agarrai nos vossos filhos pela mão, e fazei uma boa greve-oração, até que vossos mais modestos desejos sejam satisfeitos. Se tiverdes medo dos polícias, fazei como os ursos, uma sesta sazonal, com raízes e rapé para aguentardes; eu compreendo-vos, meus irmãos, é a vossa vez de me compreenderdes; agi como se Deus estivesse entre nós, como se fosse um desempregado ou um vendedor de jornais; manifestai, então, a vossa oposição seriamente e sem remorsos; e quando os senhores deste mundo virem os seus administrados definharem em massa, com Deus nas suas fileiras, talvez obtenhais justiça; sim, sim, compreendo-vos, aprovo a vossa presença na mesquita; não se pode sonhar junto das megeras e dos miúdos, não se pode ser sublime no domicílio conjugal, tem-se necessidade de se prostrar com desconhecidos, de passar desapercebido na solidão colectiva do templo; mas vós começais pelo fim; ainda mal sabeis andar e eis-vos ajoelhados; nem infância nem adolescência, vem imediatamente o casamento, a caserna, o sermão na mesquita, a garagem da morte lenta.”
Kateb Yacine
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.37

Nedjma é o espinho


“[...]o naufrágio aproximava-me da amante tanto quando dela me afastava; é uma mulher perpetuamente em fuga, para lá das paralisias de Nedjma já perversa, já embebida das minhas forças, turva como uma fonte onde tenho de vomitar depois de ter bebido; da amante que me espera, Nedjma é a forma sensível, o espinho, a carne, o caroço, mas não a alma, não a unidade viva onde poderia confundir-me sem receio de dissolução...”
Kateb Yacine
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.214

domingo, 28 de abril de 2013

O turbilhão do sangue não permitia que nenhuma ideia se fixasse

"Lakhdar acendeu um cigarro, e queimou o retrato; o seu silêncio acabou por precipitar Nedjma, corada e sinistra, para fora do quarto. Quando se lançou em sua perseguição, ouvira-a já abrir a porta da sala onde, colando-se contra a porta, apenas sentiu o arfar insistente do vento. Deu a volta à chave por fora e voltou para o quarto vazio.
Fechados Nedjma e Murad fechados, assobiava o vento em ligeiras rajadas, fustigando a luz eléctrica na atmosfera grávida, extraviando as suas odoríferas imensidões, embatendo contra as portadas, dispersando a floresta em chuvosa resina e o mar em turbilhões decapitados, em dentadas na memória. Lakhdar poisou a chave sobre um livro. «O catecismo do amor». O vento varrera o salão, proscrevera toda a visão, e o turbilhão do sangue não permitia que nenhuma ideia se fixasse, como se a cidade, graças à tempestade, fosse libertada das folhas mortas, como se a própria Nedjma volteasse algures, bruscamente varrida. (...)"  

Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.213

A impressão de um reino

"A primeira sala de estar que conhece: sala de cortinados escarlates, cobres que teriam o seu lugar na cozinha, fotografias emolduradas: salão, museu, toucador, casino? As cadeiras vomitaram discretas poeiras sobre almofadas verdes; o lustre coberto de lâmpadas dá, pela tentação de as acender todas, a impressão de um reino indevido. (...)"

Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.208

quinta-feira, 4 de abril de 2013

"Que graça! (...) Vamos fazer-lhe perder o paraíso antes de morrer."

"No começo da orgia, a criada estava na cozinha inundada de sol; saiu de lá ao crepúsculo, para se opor à pilhagem. Imediatamente agarrada, foi arrastada para o quarto nupcial. A mulher do cobrador dos Correios pegou na garrafa de rum meio vazia e enfiou-a pela boca da criada. «Que graça! rejubilava o oficial de diligências. Vamos fazer-lhe perder o paraíso antes de morrer.» (...)"
Kateb Yacine 
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.24

quinta-feira, 28 de março de 2013

Acréscimo de nudez

"O eterno jogo de Nedjma é reduzir o vestido ao mínimo em poses acrobáticas de avestruz estimulada pela solidão; sobre uma tal pelagem, o vestido é um acréscimo de nudez, a feminilidade de Nedjma está algures (...)"

Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.70

terça-feira, 26 de março de 2013

Ao andar emproa-se



Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Miasmas de hortelã e de lírio

"Os miasmas dos dias cada vez mais quentes de Junho persistem, apesar das lavagens a balde; mas são miasmas de hortelã e de lírio (...)"

Kateb Yacine 
Nedjma  Tricontinental Editora (1987) p.157

segunda-feira, 4 de março de 2013

A sombria vivacidade de um muro de terra seca

"Mesmo aos trinta anos, nómada como era, só acreditava na sua sombra, e parecia-lhe que o excedente dos anos ia um dia ser reabsorvido no vazio, conter o seu passado transbordante, como se tivesse consciência de andar em círculo, sem abandonar o ponto de partida, que situava vagamente entre o salto do berço e as vagabundagens em torno do Rochedo*, de maneira que o círculo não passava de um passeio a contragosto que por pouco o não perdera, de onde regressava às apalpadelas, não só ele, o adolescente voltando ao bom caminho, não, o seu fantasma votado a essa triste caminhada de cego chocando com o fabuloso passado, o amanhecer, a primeira infância em direcção à qual permanecia prostrado, repetindo palavras e os gestos da raça humana com uma fluidez que o deixava interiormente intacto, como um caroço prestes a germinar sob outros céus, bloco errático dotado de imperturbáveis recordações, tendo sempre sentido materialmente a sua existência em fuga, à maneira de uma erva ou de uma água, e, por volta dos cinco ou seis anos, lembrava-se de ter adoptado a sombria vivacidade de um muro de terra seca que abraçava, ao qual foram dirigidos os seus monólogos de órfão. (...)" 

Kateb Yacine 
Nedjma 
Tricontinental Editora (1987)

*Referência à sua terra natal, Constantina na Argélia.

domingo, 3 de março de 2013

Uma infância de lagarto à beira de um rio desmaiado

"Que belo dia, que magnífico pedaço de céu!
Lembrei-me da minha audaciosa infância; é verdade, eu era livre, era feliz no leito de Rhummel; uma infância de lagarto à beira de um rio desmaiado. Nas horas mais quentes, adormecia debaixo dos cedros, e o sono expulsava a melancolia; acordava inchado de calor. Parecia-se com esta alegria, sob a figueira, o ver Nedjma à saída do banho, distante, mas sem desaparecer, qual astro impossível de pilhar na sua fulgurante luz. (...)"

Kateb Yacine 
Nedjma 
Tricontinental Editora (1987)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Oposições múltiplas

Relação entre as personagens em
Nedjma de Kateb Yacine, por Charles Bonn

Como atravessar a narrativa e entender cada uma das faces do polígono, se, do lado de fora, Nedjma, é o espelho da estrela ao centro?