sábado, 14 de setembro de 2013

Adonis em Lisboa


O escritor sírio Adonis, considerado um dos maiores nomes da poesia árabe contemporânea, vai estar em Lisboa no dia 21, para um encontro literário com o escritor brasileiro Milton Hatoum, intitulado "Grandes lições", na Fundação Calouste Gulbenkian. 

No âmbito da programação "Próximo Futuro", Adonis falará da sua obra, que o tem anualmente colocado entre os favoritos para o Nobel da Literatura, em conversa com o escritor e professor brasileiro de literatura Milton Hatoum. Na sessão será ainda apresentado o segundo volume do livro "Grandes Lições (2010-2011)", que dá título a estes encontros da Gulbenkian, em parceria com a editora Tinta-da-China.

Adonis é o pseudónimo literário do escritor sírio Ali Ahmad Said Esber, de 83 anos, que se define como um "profeta pagão" que escreve poesia desde a infância. Deixou a Síria nos anos 1950, viveu no Líbano, mas fixou-se em França na década de 1980, onde deu aulas de árabe na Sorbonne, em Paris.

Defensor de uma poesia livre "das 'amarras' das instituições políticas e das obrigações religiosas", como escreve a Gulbenkian na biografia do autor, Adonis aplaudiu as revoluções sociais no mundo árabe e, no ano passado, apelou a um consenso pela paz na Síria, sem a intervenção militar.
Fonte: Diário de Notícias

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Mulher sobre poema (M´hamed Issiakhem)


"O quadro Mulher sobre poema sela a aliança entre o pintado e o escrito, escande o casamento entre o verbo e a imagem".

Ler mais:  
http://www.ziane-online.com/articles/issiakhem_kateb.htm


Kateb Yacine e M´hamed Issiakhem são irmãos siameses. Gêmeos, assombrados pela Mulher Selvagem. Semblantes geminianos, amantes e órfãos de Nedjma. Semblantes de demiurgos subversivos e irreverentes, escandalosos, insones, tempestuosos e desconcertantes que, em suas iluminações proféticas, engolem pólvora, um copázio de vodka... e acendem um cigarro. Semblantes de criação, atados e desatados no seu percurso caótico.
Benamar Mediene 
Kateb Yacine, le coeur entre les dents (tradução livre)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

«Fatma» de M'Hamed Benguettaf, em cena no Teatro Meridional em Lisboa

Sinopse Fatma, a única personagem da peça, é mulher de limpeza num ministério e na Câmara de Argel. Um dia por mês o terraço do prédio onde mora pertence-lhe para estender a roupa. É um dia feliz de total liberdade. Fatma é uma mulher como as outras, que cruzamos na rua sem nada saber do seu destino, dos seus sofrimentos, das suas alegrias. Fatma incarna todas as mulheres do mundo, sufocadas, exploradas, amordaçadas com ou sem véu. 

M'Hamed Benguettaf Autor e ator, figura marcante do teatro argelino, nasceu a 20 de dezembro de 1939 em Argel. Como ator passa grande parte da sua carreira no Teatro Nacional Argelino antes de figurar entre os fundadores da Companhia Masrah el Kalaâ - Teatro da Cidadela no início dos anos 90. Trabalha entretanto intensamente para a rádio. Igualmente tradutor e adaptador de Nazim Hikmet, Kateb Yacine, Ali Salem, Mahmoud Diab ou Ray Bradbury, Benguettaf considera, com esta sua experiência, ter encerrado a primeira grande etapa do seu percurso que compara, segundo os seus próprios termos, a "um estágio de formação profissional em que reúne os instrumentos da sua própria linguagem e forja a partir daí a sua voz de autor dramático". Obtém a bolsa Beaumarchais e faz "residências" em Limoges em 1994, 2002 e 2003. Em junho de 2003 é nomeado diretor do Teatro Nacional Argelino.

Ficha artística
Autor: M’Hamed Benguettaf
Tradução: Mário Jacques
Encenação: Elsa Valentim
Interpretação: Sofia de Portugal
Espaço Cénico-Imagem Gráfica: Aurélio Vasques
Música: Rui Rebelo
Produção Executiva: Anabela Gonçalves
Produção: Teatro dos Aloés

Classificação etária: M/12
Mais informações aqui.

domingo, 11 de agosto de 2013

Henri Alleg 1921-2013


"Um caso particular e peculiar da tortura tem a ver com as humilhações de carácter sexual. Durante a guerra da Argélia nunca ninguém falou disso. A tal ponto que nem eu nem os meus companheiros havíamos falámos. Os oficiais franceses, os militares colonialistas, tão pouco. Do lado argelino também houve um silêncio total devido à cultura de tradição islâmica. Por isso os argelinos mantiveram-se silenciosos quanto ao assunto. Na tradição argelina, e árabe de um modo mais geral, pensa-se que uma mulher violada está humilhada e suja. Não apenas ela, como pessoa individual, mas considera-se que toda a família foi humilhada. Uma destas mulheres argelinas, uma amiga minha, foi violada. Tem agora 72 anos. Contou-me que quando caiu na prisão — tinha então 17 anos — e contou da violação à mãe, que também estava na prisão, esta recomendou-lhe que não contasse a mais ninguém que fora violada. Nem ao pai, nem aos irmãos, nem a ninguém. Ninguém da família ou de fora da família. Que poderia acontecer? Pois, que a rapariga fosse expulsa da família e assim poderia perder absolutamente tudo. Este foi o caso de todas ou quase todas as prisioneiras argelinas em poder dos colonialistas franceses. (...)"

Henri Alleg

«Os Poemas Suspensos» de Imru al-Qais

Imru al-Qais | Trad. Alberto Mussa | Record
Mais informações aqui
"Os poemas dos antigos beduínos são o único caso de literatura antiga que não pertence à civilização, no sentido estrito do termo. Mesmo a poesia chinesa, a literatura do antigo Egito, as epopéias babilônicas, o conjunto das demais literaturas do oriente, tudo é produto das cidades, onde há lei, governos, regras sociais bem definidas que reduzem drasticamente a liberdade individual. Os primitivos árabes viviam à margem da civilização do Oriente Médio (e quando falo em civilização não estou dando ao conceito nenhuma grandeza especial). O deserto é o ambiente mais inóspito para a espécie humana, porque falta água, o bem mais essencial à vida. (...)"
Alberto Mussa 
Tradutor d'Os Poemas Suspensos 
em entrevista aqui.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vernacular literature

"Although Martinique-born, psychiatrist Franz Fanon (1925-1961) is better known as an Algerian, author of ‘Wretched of the Earth’, writing on the psychopathology of colonialism. In the excerpt from ‘On National Culture’ he severely criticises the “colonized intellectual” who instead of returning to some nostalgic prelapsarian past must use literary talents to galvanize the people who are oppressed now. A poet who responded to this call was Kateb Yacine (1929-1989), of Berber ancestry, who created a powerful Maghrebian vernacular literature for every medium. (...)"

 Norbert Hirschhorn
Texto completo por ser lido aqui.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Árabes no Rio de Janeiro – Uma identidade plural

Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto | Editora Cidade Viva |  Org. MV Serra
Mais informações aqui

"Tendo crescido no círculo da comunidade libanesa do Rio de Janeiro, filha, neta e bisneta de libaneses, frequentando o Clube Monte Líbano e esporadicamente o Clube Sírio e Libanês, levei algum tempo para entender a dimensão da comunidade árabe no meu Estado natal.
Mas ao conhecer o livro “Árabes no Rio de Janeiro – uma identidade plural”, me vi tomada pelo sentimento de orgulho e, ao mesmo tempo, surpresa pelo tamanho, riqueza e multiplicidade da presença das culturas árabes no lugar onde nasci. (...) Paulo Gabriel Hilu, Instituto Light e Editora Cidade Viva nos trazem um panorama inédito da chegada e evolução dos povos árabes no Rio de Janeiro, desvelando sua inserção nos vários segmentos da sociedade fluminense, sua participação na construção de nossa identidade e, sobretudo, mostrando como são sempre ricos o casamento e a convivência de culturas que se querem bem e se respeitam. (...)"
Katia Hakim Chalita

sábado, 13 de julho de 2013

Arabic was the language of French aristocrats Before the Terror

Mu'allaqa

Both the word thunder and the word picnic are of course Arabic.
Indeed, Arabic was the language of French aristocrats
Before the Terror, bad body odor perfumed.
It is the language of the great Robert Frost poems,
Which have the suicide bomber's innocence
Walking safely past the checkpoint into the crowd.


Imru' al-Qais
Poema completo aqui

sábado, 29 de junho de 2013

À primeira vista




Por Jacqueline Arnaud:

Acabava de estourar a insurreição no inverno de 1954-1955, depois dos motins marroquinos e tunisianos que começavam a incendiar a África. Eu e meus amigos acompanhávamos as notícias nos jornais, participávamos de reuniões e manifestações contra a guerra. Em nome do que ainda era para mim anti-racismo abstrato, baseado no anti-colonialismo fundamentado em fatos contados e vividos na Indochina por pessoas que admirava.  
Então, numa noite desse mesmo inverno, meus amigos me levaram ao Collège Philosophique onde acontecia uma conferência-debate reunindo vários escritores magrebinos: Albert Memmi, Driss Chraïbi, Kateb Yacine. Este último, desconhecido fora de uma pequena roda, entusiasmado com o romance que acabava de escrever, Nedjma, falava alto, especialmente de um típico colono, o personagem Sr. Ricardo, como sendo vítima do sistema que o fazia explorador, mais inquieto por compreendê-lo que condená-lo. Escutando Kateb, a gente tinha a sensação de que nada estava perdido, apesar do começo da guerra, de que tudo poderia se resolver. Pouco depois, num café, onde alguns amigos se reuniram após o debate, Kateb continuava a contar sobre o livro, extasiado por seu mundo interior, pelas criaturas que o possuíam [...]  Tive a impressão de que naquele dia um mundo surgia para mim, cuja estranheza me fascinava. Ele nos mantinha sob seu charme. Ainda vejo e escuto nitidamente Kateb, a pequena veia batendo nas suas têmporas, na embriaguez de seu discurso torrencial, se curvando e se sacudindo de rir:

“Então Si Mokhtar percorreu as ruas de Constantina com uma mordaça na boca: Vive la France, les Arabes silence.”   

Todo absurdo da guerra da Argélia que apenas começava estava contido nas suas palavras.

Jacqueline Arnaud

La littérature maghrébine de langue française, 1986 (vol. I, II)  – tradução livre.

Kateb Yacine - كاتب ياسين

domingo, 23 de junho de 2013

A literatura magrebina de língua francesa

Alguns escritores magrebinos foram alfabetizados na língua francesa desde a tenra idade e, aprendendo a jogar com a língua do colonizador, transformaram-na em instrumento de luta e reivindicação identitária. Ao se apropriarem do francês e se expressarem efetivamente nessa língua, não deixaram de mencionar a cisão psíquica e o mal-estar profundo que essa vivência lhes causou. Submetidos ao sistema de ensino europeu desde cedo, deparavam-se com o bilinguismo colonial e suas consequências. Mais de um século após o início da colonização francesa (1830), sofriam suas influências irreversíveis e, através de questões existenciais, faziam um balanço por um viés histórico, psicológico e até mesmo psicanalítico: “ ‘Qui suis-je, moi, Nord-Africain, colonisé’ dans le monde, parmi les miens, par rapport aux autres? ”[1] Indagação simples, sobre um princípio existencial do homem. No entanto, não obtiveram resposta tão cedo; esta exigiria o nascimento de um novo Magreb.  



[1] " 'Quem sou eu, norte-africano, colonizado' no mundo, entre os meus, em relação aos outros?" (Déjeux, 1980, p.42).

sábado, 8 de junho de 2013

Literatura argelina

"La littérature algérienne, ce n’est pas Camus."

Kateb Yacine

terça-feira, 28 de maio de 2013

La liseuse, Sábado, 25 de Maio, Nanterre, França


Seguido da leitura do "Polígono Estrelado", por Arnaud Churin.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Albert Camus e a guerra de independência

No contexto da Guerra da Argélia (1954-1962), Albert Camus foi um dos escritores mais criticados pelos próprios compatriotas. Filho de pieds-noirs, foi condescendente com uma Argélia francesa pelo fim da guerra de independência. Essa posição contraria a Frente de Libertação Nacional (FLN), que àquela altura reivindicava uma Argélia árabe-muçulmana, assim como faziam muitos escritores magrebinos engajados na luta pela independência. Também foi mal-interpretado ao declarar a seguinte frase : “acredito na justiça, mas prefiro minha mãe à justiça”, protestando contra o radicalismo de grupos guerrilheiros e a onda de terrorismo que assolava as ruas de Argel. 
Kateb Yacine criticou a posição atenuada de Camus frente à situação da nação argelina e as injustiças na colônia. Quando Camus é premiado com o Nobel de Literatura (1957), recebe uma carta de Kateb.

sábado, 4 de maio de 2013

Algerian Chronicles

Algerian Chronicles, de Albert Camus, Introd. de Alice Kaplan
e tradução de Arthur Goldhammer
Harvard University Press (2013)
Mais de 50 anos depois da independência da Argélia são agora publicadas em inglês as crónicas de Albert Camus escritas durante o período colonial. Ao contrário de Kateb Yacine, Camus não apoiou a independência da Argélia. Tornaram-se "irmãos inimigos".

"Algerian authors and friends, such as Mouloud Feraoun (1913-'62) and Kateb Yacine (1929-'89), criticized Camus for his paternal social depiction of the colonized (notably his failure to recognize or include them adequately and accurately in his writing), as well as his inability to fully comprehend their insistent political aspirations. Yet, situated in particularly difficult and demanding historical and personal conditions, Camus found himself isolated and alienated by colonialists and by the colonized. (...)"
Alice Kaplan
(da introdução)

terça-feira, 30 de abril de 2013

Uma pulga sentimental


Parti com os panfletos.
Enterrei-os na ribeira.
Tracei sobre a areia um plano...
Um plano de manifestação futura.
Deem-me essa ribeira, e bater-me-ei.
Bater-me-ei com areia e água.
Com água fresca, com areia quente. Bater-me-ei.
Estava decidido. Portanto via longe. Muito longe.
Via um camponês fincado como uma catapulta.
Chamei-o, mas ele não veio. Fez-me sinal.
Fez-me sinal de que estava em guerra.
Em guerra com seu estômago. Toda a gente sabe...
Toda a gente sabe que um camponês não tem espírito.
Um camponês é só estômago. Uma catapulta.
Eu cá era estudante. Era uma pulga.
Uma pulga sentimental... As flores dos choupos...
As flores dos choupos explodiam em penugem sedosa.
Eu cá estava em guerra. Divertia o camponês.
Queria que ele esquecesse a sua fome. Eu fingia de doido. Fingia de doido diante do meu pai o camponês. Eu bombardeava a lua na ribeira.
Kateb Yacine
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.48,49

Mas vós começais pelo fim


“O recolhimento e a sabedoria, isso é bom para os valentes que já combateram. Levantai-vos! Voltai aos vossos postos, fazei a oração no trabalho. Parai as máquinas do mundo, se temeis uma explosão; deixai de comer e de dormir durante uns tempos, agarrai nos vossos filhos pela mão, e fazei uma boa greve-oração, até que vossos mais modestos desejos sejam satisfeitos. Se tiverdes medo dos polícias, fazei como os ursos, uma sesta sazonal, com raízes e rapé para aguentardes; eu compreendo-vos, meus irmãos, é a vossa vez de me compreenderdes; agi como se Deus estivesse entre nós, como se fosse um desempregado ou um vendedor de jornais; manifestai, então, a vossa oposição seriamente e sem remorsos; e quando os senhores deste mundo virem os seus administrados definharem em massa, com Deus nas suas fileiras, talvez obtenhais justiça; sim, sim, compreendo-vos, aprovo a vossa presença na mesquita; não se pode sonhar junto das megeras e dos miúdos, não se pode ser sublime no domicílio conjugal, tem-se necessidade de se prostrar com desconhecidos, de passar desapercebido na solidão colectiva do templo; mas vós começais pelo fim; ainda mal sabeis andar e eis-vos ajoelhados; nem infância nem adolescência, vem imediatamente o casamento, a caserna, o sermão na mesquita, a garagem da morte lenta.”
Kateb Yacine
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.37

Nedjma é o espinho


“[...]o naufrágio aproximava-me da amante tanto quando dela me afastava; é uma mulher perpetuamente em fuga, para lá das paralisias de Nedjma já perversa, já embebida das minhas forças, turva como uma fonte onde tenho de vomitar depois de ter bebido; da amante que me espera, Nedjma é a forma sensível, o espinho, a carne, o caroço, mas não a alma, não a unidade viva onde poderia confundir-me sem receio de dissolução...”
Kateb Yacine
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.214

domingo, 28 de abril de 2013

O turbilhão do sangue não permitia que nenhuma ideia se fixasse

"Lakhdar acendeu um cigarro, e queimou o retrato; o seu silêncio acabou por precipitar Nedjma, corada e sinistra, para fora do quarto. Quando se lançou em sua perseguição, ouvira-a já abrir a porta da sala onde, colando-se contra a porta, apenas sentiu o arfar insistente do vento. Deu a volta à chave por fora e voltou para o quarto vazio.
Fechados Nedjma e Murad fechados, assobiava o vento em ligeiras rajadas, fustigando a luz eléctrica na atmosfera grávida, extraviando as suas odoríferas imensidões, embatendo contra as portadas, dispersando a floresta em chuvosa resina e o mar em turbilhões decapitados, em dentadas na memória. Lakhdar poisou a chave sobre um livro. «O catecismo do amor». O vento varrera o salão, proscrevera toda a visão, e o turbilhão do sangue não permitia que nenhuma ideia se fixasse, como se a cidade, graças à tempestade, fosse libertada das folhas mortas, como se a própria Nedjma volteasse algures, bruscamente varrida. (...)"  

Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.213

A impressão de um reino

"A primeira sala de estar que conhece: sala de cortinados escarlates, cobres que teriam o seu lugar na cozinha, fotografias emolduradas: salão, museu, toucador, casino? As cadeiras vomitaram discretas poeiras sobre almofadas verdes; o lustre coberto de lâmpadas dá, pela tentação de as acender todas, a impressão de um reino indevido. (...)"

Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.208

quinta-feira, 25 de abril de 2013

"O polígono estrelado" (1966) - últimos parágrafos


"[...] meu pai de repente tomou a irrevogável decisão de me enfiar, sem mais tardar, na “boca do lobo”, quer dizer, na escola francesa. Ele o fazia com o coração apertado:
_ Deixe o árabe por agora. Não quero que, assim como eu, você esteja sentado entre duas cadeiras. Não, se depender de minha vontade, você nunca será uma vítima da Madraçal [1]. Em tempos normais, eu poderia ser seu próprio professor, e sua mãe faria o resto. Mas aonde uma educação como essa o levaria? A língua francesa domina; é preciso dominá-la, e deixar para trás tudo o que lhe inculcamos na sua tenra infância. Mas, uma vez mestre na língua francesa, você poderá sem medo voltar conosco ao seu ponto de partida.
Era mais ou menos assim o discurso paterno.
Será que ele mesmo acreditava?
Minha mãe suspirava; e quando eu mergulhava no novo estudo, fazendo, sozinho, minhas lições, eu a via perambular, como uma alma penada. Adeus ao nosso teatro íntimo e infantil, adeus ao complô diário tramado contra meu pai, para replicar, em versos, seus arroubos satíricos... e o drama se formava.
[...]
Minha mãe era muito perspicaz para não se comover com a infidelidade que eu lhe fazia. E ainda a vejo, toda aborrecida, arrancando-me dos livros – você vai ficar doente! – e uma noite com a voz cândida, mas não sem tristeza, dizendo-me: “Já que não devo mais o distrair de seu outro mundo, ensina-me então a língua francesa...” Assim se fecha a armadilha dos Tempos Modernos sobre minhas frágeis raízes, e não me esqueço do meu estúpido orgulho no dia em que minha mãe, com um jornal francês na mão, pôs-se diante de minha escrivaninha, longe como nunca, pálida e silenciosa, como se a pequena mão do cruel aluno lhe atribuísse o dever, uma vez que é seu filho, de vestir por ele a camisa-de-força do silêncio, e mesmo de segui-lo até o fim de seu esforço e solidão – na boca do lobo.
Nunca deixei, mesmo nos dias de sucesso ao lado da professora, de sentir no fundo de mim essa segunda ruptura do cordão umbilical, esse exílio interior que só aproximava o aluno de sua mãe para arrancá-los um do outro, um pouco por vez, sob o murmúrio do sangue, dos gemidos reprovadores de uma língua banida, secretamente, num só acordo, rompido tão logo concluído... Assim, perdi tudo de uma só vez, minha mãe e sua linguagem, os únicos tesouros inalienáveis – e, contudo, alienados!"

Kateb Yacine
Le polygone étoiléÉditions du Seuil, 1997 (p.180-182) - tradução livre.



[1] Escola muçulmana.

domingo, 7 de abril de 2013

Círculo de represálias

Madrid: Editorial Cuadernos para el Diálogo, 1974
Tradução de Carlos Rodríguez Sanz

quinta-feira, 4 de abril de 2013

"Que graça! (...) Vamos fazer-lhe perder o paraíso antes de morrer."

"No começo da orgia, a criada estava na cozinha inundada de sol; saiu de lá ao crepúsculo, para se opor à pilhagem. Imediatamente agarrada, foi arrastada para o quarto nupcial. A mulher do cobrador dos Correios pegou na garrafa de rum meio vazia e enfiou-a pela boca da criada. «Que graça! rejubilava o oficial de diligências. Vamos fazer-lhe perder o paraíso antes de morrer.» (...)"
Kateb Yacine 
Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.24

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Pathogenic effects of colonial and psychiatric violence

"Algerian novelist Kateb Yacine was at the center of the Algerian revolution as a teenager. As an upper class Algerian with both Qur’anic and French colonial education he embodied the cultural quandary of the évolué: native Arabs afforded the best of the mission civilisatrice and caught between two cultures. His mother also suffered from serious mental illness and was repeatedly hospitalized for years, including an extended stay at Blida psychiatric hospital. In various fictional guises, she becomes a recurring trope in Yacine’s work of the pathogenic effects of colonial and psychiatric violence. (...)"
Vernon A. Rosario 
University of California, Los Angeles
H-France Review Vol. 8 (January 2008), No. 7

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Le cadavre encerclé

"Com Le cadavre encerclé (1958), Kateb Yacine foi o primeiro dramaturgo de língua francesa a tomar a guerra da Argélia como tema.
Do lado francês, apenas Genet com Os Biombos abordou o assunto. Houve também alguns sketchs satíricos, como Les séquestrés d’Altona, de Sartre, que pretendia abordar indiretamente o problema da tortura na Argélia. (...)
Luís Cláudio Machado
(Uniso - Universidade de Sorocaba)