quinta-feira, 28 de março de 2013

Solidariedade de clã

"Na Argélia  o que chama mais a atenção, por ocasião da morte de uma pessoa, é o interesse que a comunidade inteira lhe devota. A este nível, a tragédia da morte é sentida, muito mais do que noutro ponto, como um atentado aos sentimentos de todo o meio social, devido a um certo poder das relações interfamiliares e intergrupais. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma forma de solidariedade de clã (...). 
Um provérbio do Sul argelino diz: Cada lágrima que cai por um morto, é para ele uma faísca no Inferno. Na realidade, a religião muçulmana proíbe que se chorem os mortos em demasia. (...)  Muitas vezes, em certas regiões da Argélia rural, há o costume de deixar a porta da casa aberta, para permitir a todos que o desejem - mesmo desconhecidos - compartilhar a dor da família e exprimir as suas condolências. (...)"

Rachid Boudjedra 
A vida contemporânea na Argélia na época contemporânea 
 Livros do Brasil (1972) p. 54

Fada benfazeja

"Para as crianças argelinas, os irmãos e as irmãs não nascem das couves. É uma fada benfazeja que as coloca na cama da mãe. Isto, diz a lenda. Na realidade, o nascimento de uma criança é considerado como um grande acontecimento nas famílias argelinas. Com esta finalidade, um certo número de ritos e de cerimónias são organizados em honra de recém-nascido e de sua mãe. (...)"

Rachid Boudjedra
A vida contemporânea na Argélia na época contemporânea 
Livros do Brasil (1972) p. 17

Acréscimo de nudez

"O eterno jogo de Nedjma é reduzir o vestido ao mínimo em poses acrobáticas de avestruz estimulada pela solidão; sobre uma tal pelagem, o vestido é um acréscimo de nudez, a feminilidade de Nedjma está algures (...)"

Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987) p.70

terça-feira, 26 de março de 2013

Ao andar emproa-se



Kateb Yacine 
 Nedjma Tricontinental Editora (1987)

segunda-feira, 25 de março de 2013

A Arte do "Zajal" | Estudo de Poética Árabe | Michel Sleiman


Michel Sleiman
Ateliê Editorial (2008)

Miasmas de hortelã e de lírio

"Os miasmas dos dias cada vez mais quentes de Junho persistem, apesar das lavagens a balde; mas são miasmas de hortelã e de lírio (...)"

Kateb Yacine 
Nedjma  Tricontinental Editora (1987) p.157

Assim vai um dos maiores livros da literatura árabe (e mundial...) nas nossas bibliotecas:



Cheio de luz no rosto

"As minhas lágrimas, tão grandes, encharcaram-me
os pés mais o tapete verde do mihrab,
sob o olhar benigno de Maulana
Kássimo Taybob, cheio de luz no rosto
e aura azul-celeste a envolver-lhe o corpo. (...)"

António Barahona
Raspar o Fundo da Gaveta e Enfunar uma Gávea 
Averno (2011), p.27

sábado, 23 de março de 2013

As mulheres na poesia árabe contemporânea


"This anthology was prepared to eradicate invisibility: to provide an introduction to Arab women poets, to make visible the works of a great number of Arab women poets who are virtually unknown to the West, to make visible how many Arab American women poets are marginalized within the American literary and ethnic scenes, and to demonstrate the wide diversity of Arab women's poetry..."

Nathalie Handal
(do prefácio)

sexta-feira, 8 de março de 2013

Algumas palavras berberes

Tafuyt - Sol
Oungaal - Preto
Issalman - Peixes
Alkhekh - Areia
Serwal - Calças
Adad - Dedo
Samhi - Perdão
Tadart - Casa
Drra - Milho
Afuus - Mão
Amnassf - Metade

quarta-feira, 6 de março de 2013

Metempsicose?

"Nedjma: não é ela a reencarnação de Eurídice trazida dos infernos por Orpheu, seu amante? Não ela a sua [de Kateb Yacine] metempsicose?"

Benamar Médiène
trad. por aqf

segunda-feira, 4 de março de 2013

A sombria vivacidade de um muro de terra seca

"Mesmo aos trinta anos, nómada como era, só acreditava na sua sombra, e parecia-lhe que o excedente dos anos ia um dia ser reabsorvido no vazio, conter o seu passado transbordante, como se tivesse consciência de andar em círculo, sem abandonar o ponto de partida, que situava vagamente entre o salto do berço e as vagabundagens em torno do Rochedo*, de maneira que o círculo não passava de um passeio a contragosto que por pouco o não perdera, de onde regressava às apalpadelas, não só ele, o adolescente voltando ao bom caminho, não, o seu fantasma votado a essa triste caminhada de cego chocando com o fabuloso passado, o amanhecer, a primeira infância em direcção à qual permanecia prostrado, repetindo palavras e os gestos da raça humana com uma fluidez que o deixava interiormente intacto, como um caroço prestes a germinar sob outros céus, bloco errático dotado de imperturbáveis recordações, tendo sempre sentido materialmente a sua existência em fuga, à maneira de uma erva ou de uma água, e, por volta dos cinco ou seis anos, lembrava-se de ter adoptado a sombria vivacidade de um muro de terra seca que abraçava, ao qual foram dirigidos os seus monólogos de órfão. (...)" 

Kateb Yacine 
Nedjma 
Tricontinental Editora (1987)

*Referência à sua terra natal, Constantina na Argélia.

domingo, 3 de março de 2013

Uma infância de lagarto à beira de um rio desmaiado

"Que belo dia, que magnífico pedaço de céu!
Lembrei-me da minha audaciosa infância; é verdade, eu era livre, era feliz no leito de Rhummel; uma infância de lagarto à beira de um rio desmaiado. Nas horas mais quentes, adormecia debaixo dos cedros, e o sono expulsava a melancolia; acordava inchado de calor. Parecia-se com esta alegria, sob a figueira, o ver Nedjma à saída do banho, distante, mas sem desaparecer, qual astro impossível de pilhar na sua fulgurante luz. (...)"

Kateb Yacine 
Nedjma 
Tricontinental Editora (1987)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Família Kateb

Kateb Yacine (no canto superior direito)
com o pai, a mãe, duas irmãs e o irmão mais novo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Sangue

"Quem nunca passou a noite nas pupilas duma ave de rapina pode saber a que cadência foge o sangue negro dum coração mordido pelo terror?"

Kateb Yacine
O Pó da Inteligência (Teatro)
Tradução de Luís Varela e Christine Zurbach.

Da não militância de Kateb Yacine

"Is Kateb [Yacine] a militant? His tumultuous relations with Alger républicain are well known. He had earned a modest living for a while by working for this Algerian Communist Party newspaper, but in opposition to its demand for unquestioning loyalty, he agressively defended the independence of the writer's mission. Ce que je refuse chez Brecht, he announced during the late 1950s (...) Kateb's own activities as a writer partially paralleled his friedships with political activists and his strong opinions, even if they are transcended by the rich complexity of an oeuvre tha inattentive readers have akk too often reductively misinterpreted as no more than the expression of its author's militancy. (...)" 

 Charles Bonn

domingo, 30 de dezembro de 2012

As minorias cristãs no mundo árabe


Em março de 1996, sete monges franceses da Ordem de Cister são raptados do mosteiro de Tibirine, 90 quilómetros a sul da capital da Argélia. Dois meses depois, os seus corpos, decapitados, são encontrados numa montanha.

http://sicnoticias.sapo.pt/programas/sociedadedasnacoes/2012/12/28/as-minorias-cristas-no-mundo-arabe

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Pan-arabismo

"L'idéal du panarabisme ne me concerne pas. Ça ne tient pas debout pour moi. Il ya des peuples de langue arabe : il ya un peuple syrien, un peuple palestinien, un peuple libyen. Je m'oppose à l'idéologie qui utilise des termes flous, parce que je trouve qu'elle est fausse scientifiquement et très dangereuse. C'est elle qui nous a fait rater l'Afrique, par exemple. Voilà pourquoi nous, Nord-Africains, nous tournons le dos à l'Afrique : parce que l'arabo-islamisme nous masque l'Afrique d'abord. Nous sommes Africains, oui, c'est une notion vraie, géographiquement vraie et historiquement vraie... Si on voyait les choses à l'échelle africaine, on pourrait comprendre maintenant l'importance de l'Afrique du Sud pour nous. On pourrait en ce moment avoir une plus grande solidarité avec les peuples africains pour faire tomber les barrières." 

Kateb Yacine
La Presse, 24 de Dezembro, 1986

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Promessas religiosas

Edgar Morin e Cornelius Castoriadis

Cornelius Castoriadis: (...) Existiram  lutas multisseculares para conseguir separar o religioso do divino. Um movimento deste tipo nunca aconteceu no Islão. Este tem perante si um Ocidente que já só vive enquanto devora a sua herança e que preserva o satu quo liberal mas já não inventa significados emancipatórios  Aos Árabes diz-se mais ou menos isto: «deitem fora o Corão e comprem videoclips de Madonna» enquanto, ao mesmo tempo, lhes vendemos a crédito aviões Mirage. Se existe uma «responsabilidade» histórica do Ocidente a este respeito reside aí. O vazio de sentido das nossas sociedades no coração das democracias modernas não pode ser preenchido pela acumulação de «gadgets». Não pode deslocar as significações religiosas que mantêm aquelas sociedades coesas. É aí que se encontra a pesada perspectiva do futuro. (...)"

Edgar Morin: (...) É verdade que deparamos, à primeira vista, com massas magrebinas em fúria, julgando que um subjugador é um libertador [Saddam Hussein]. Mas isso não é uma característica árabe ou islâmica: também nós protagonizámos, mais que não fosse através da nossa idolatria para com Estaline ou Mao, que não é assim tão antiga. Conhecemos as histerias religiosas, nacionalistas, messiânicas. (...) Neste estado de coisas, talvez provisório, acreditamos que as paixões e os fanatismos são próprios dos Árabes. A um nível mais profundo podemos lastimar que a democracia não consiga implantar-se fora da Europa ocidental. Mas basta pensar em Espanha, na Grécia, na Alemanha nazi de ontem e na própria França para compreender que a democracia é um sistema difícil de se enraizar. Alimenta-se de diversidades e conflitos enquanto for capaz de regulá-los e de torná-los produtivos, mas também pôde ser precisamente destruída por eles. Não pôde implantar-se no mundo árabe-islâmico porque, primeiramente, este não pôde realizar o estado histórico da laicização que - do século VIII ao século XIII - germinava sem dúvida dentro de si, mas que o Ocidente pôde, por seu lado, encetar a partir do século XVI. Só a laicização, que é o recuo da religião em relação ao Estado e à vida pública, permite a democratização. Mesmo nos países árabe-islâmicos onde existiram poderosos movimentos de laicização, a democracia parecia uma solução fraca quando comparada com a revolução, a qual permitia simultaneamente a emancipação em relação ao Ocidente dominador. Ora, tanto as promessas da revolução nacionalista como a da revolução comunista eram promessas religiosas, uma trazendo a religião do Estado-Nação, a outra a da salvação terrestre. (...)

Cornelius Castoriadis: Parece-me claro que a situação mundial é intolerável e insuportável, que o ocidente não dispõe nem dos meios nem da vontade para modificá-la  no que é essencial e que o movimento de emancipação se encontra encravado. (...) Um parêntesis para dizer que sabemos que durante todo um período os Árabes foram mais civilizados do que os Ocidentais. Depois eclipsaram-se. O que captaram da herança da Antiguidade nunca foi porém de natureza política; a problemática política dos Gregos, fundamental para a democracia, não fecundou entre os filósofos e as sociedades árabes. As comunas europeias arrancaram as suas liberdades, a nível mundial, no final do século X. Não se trata de «julgar» os Árabes mas de constatar que o ocidente precisou de dez séculos para conseguir, com maior ou menor sucesso, libertar a sociedade política do domínio religiosos. (...)

Discussão entre Cornelius Castoriadis e Edgar Morin, publicada no Le Monde, 19 de Março de 1991, in. A ascensão da insignificância, de Cornelius Castoriadis, Editorial Bizâncio (2012), pp. 57-64.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"L'urgente nécessité de filmer un pays merveilleux..."



Kateb Yacine em 1989 na apresentação do filme "Kateb Yacine: l'amour et la révolution" de  Kamel Dehane.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Homenagem a Kateb Yacine


No âmbito da 5ª Edição do Festival La Roseraie des Cultures em L'Haÿ-les-Roses, França. Com as participações de Yahia Belaskri,  Anouar Benmalek, Jean-Pierre Han e Alain Mabanckou.

sábado, 10 de novembro de 2012

Parce que c'est une femme de Kateb Yacine


Encenação de Melinda Heeger e Marwanne El Boubsi. Música de Karine Germaix