terça-feira, 17 de julho de 2012

Banha-te, Nedjma...

"Os corpos das mulheres desejadas, como os despojos das víboras e os perfumes voláteis, não são feitos para perecer, apodrecer e evaporar-se na nossa atmosfera: frascos, redomas e banheiras; é aí que devem durar as flores, cintilar as escamas e as mulheres expandir-se, longe do ar e do tempo, tal como um continente submerso ou um destroço que se atira para o fundo do mar, para aí descobrir mais tarde, em caso de sobrevivência, um derradeiro tesouro. E quem não encarou a sua amante, quem não sonhou com a mulher capaz de o esperar nalguma banheira ideal, inconsciente e sem adornos, para a recolher sem desonra após a tormenta e o exílio? Banha-te, Nedjma, prometo-te não ceder à tristeza quando o teu encanto se dissolver, pois não há nenhum atributo da tua beleza que não me tenha tornado a água cem vezes mais cara; não é a fantasia que me faz sentir este imenso afecto por um caldeirão. Amo cegamente o objecto sem memória em que se disputam os últimos manes dos meus amores. Praza aos céus que saias lavada da tinta cinzenta que só a minha natureza de lagarto imprime injustamente na tua pele!"

Kateb Yacine
Nedjma (Tricontinental Editora, 1987)

Algéria: O nascimento de uma Nação

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Rédea solta

Juan Goytisolo
"O empenho de um escritor de génio como Kateb Yacine, em promover a língua materna a fim de dar rédea solta, através de espectáculos teatrais em dialecto, às vivências quotidianas do povo e aos sentimentos normalmente proscritos pela «langue de bois» utilizada, desbravou o caminho para as obras satíricas de Sliman Benaisa e a feliz adaptação da oralidade da «halca» do recém-assassinado director Abdelkader Alicha, natural de Oran. No entanto, a força do «darixa», ou o árabe comum a milhões de argelinos não berberes, embate, por sua vez, não obstante as suas potencialidades enriquecedoras, com o elitismo dos francófonos e com a vontade normalizadora dos islamistas. (...)"

Juan Goytisolo
El  País (Abril de 1994)
[Tradução de Maria João Reis]

terça-feira, 10 de julho de 2012

Velhos fantasmas

"(...) A guerra da Argélia mudou a França e colocou-a, a partir de então, sob uma herança histórica muito particular. Pode dizer-se que, durante muitos anos, houve por aqui como que um esforço, nunca abertamente assumido, de afastar o país desse tempo, talvez numa consciência subliminar de que a sua evocação arriscaria acordar velhos fantasmas. Curiosamente, terá sido o agravamento das tensões político-religiosas dentro da própria Argélia, a partir dos anos 90, que provocou, na França, o início de um surto de reflexão sobre aquela que foi a mais traumática das independências dos territórios sob sua administração. Dezenas de livros e muitos filmes passaram a trazer a um melhor conhecimento pelas novas gerações desse período convulso. Ouvindo testemunhos do período de confrontação, de ambos os lados do Mediterrâneo, fica uma clara sensação de que ainda há feridas bem abertas que, quem sabe?, talvez só possam ter a ganhar com este exorcismo de memória. É que a vida também prova que meter o passado sob o tapete só aumenta o risco de, um dia, nele tropeçarmos."

Francisco Seixas da Costa
Embaixador português em França, aqui.

50 anos depois: os franco-argelinos ainda se ressentem

quinta-feira, 5 de julho de 2012

No cinquentenário da independência da Argélia

Realiza-se hoje na Universidade de Brasília o seminário de Celebração do Cinquentenário da Independência da Argélia, promovido pelo Grupo de Estudos Literários Magrebinos Francófonos do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UNB. Cláudia Falluh Balduino Ferreira apresenta a comunicação: "Dois escritores argelinos: Mohamed Dib e Yacine Kateb". O seminário tem início marcado para as 9h30. Mais informações aqui.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Guerra da Argélia no Army Museum de Paris

Como um fuso

"Cai-se no alcoolismo, e fazem-se filhos franzinos. Eu cá, ao nascer, era obeso, os turistas tomavam-me nos braços. Não parece um bebe árabe! Que bonito! Mas não tardei a ficar como a minha mãe, magro, magro como um fuso; serve-me para as zaragatas."

Kateb Yacine
Nedjma
(Tricontinental Editora, 1987)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um mundo comum

“Os tais berberes que nós hoje arrumamos ali algures no Norte de África (...) ocupavam todo (...) o sul da Península Ibérica. Era a mesma cultura, era a mesma língua, o mesmo espaço, a mesma habitação. (…) Todo este mundo fez parte de um mundo comum. (…) E a gente agora deprecia-os, esquece-os, não percebe que pertencem à nossa estrutura cultural.”

Cláudio Torres
[Ouvido hoje na SIC, nos 25 anos do Prémio Pessoa]

Notícia da morte de Kateb Yacine

Diário de Lisboa, 2 de Novembro de 1989

terça-feira, 15 de maio de 2012

Dazzling language

"[Kateb Yacine] can be considered principally as a poet who only uses novelistic and dramatic forms in order to destroy them. This confusion of literary genres is naturally, in this case, a terrorist technique that smashes the characteristic structure of the novel and which creates a dazzling language that blazes in all directions."

Abdelkébir Khatibi

Une ruine et un chatier

"Je crois bien, en effet, que je suis l'homme d'un seul livre. A l'origine, c'est un poème qui s'est transformé en romans et en pièces de théâtre, mais c'est toujours la même œuvre que je laisserai certainement comme je l'ai commencée, c'est-à-dire à la fois une ruine et un chatier."

Kateb Yacine
Em entrevista ao Jeune Afrique, 26 de Março de 1967.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Poète et militant

"en moi, le poète combat le militant et le militant combat le poète."

Kateb Yacine

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Mais uma vítima da guerra

CORIFEU - Em todas as grandes cidades há açores engaiolados com as tribos.

ALI - Sim, os velhos coxos ou os seus filhos nascidos na gaiola. Uma triste minoria. Ainda não há muito tempo, a minha mãe ofereceu-me um açorzinho amarrado à pata. Tinha bastante campo de manobra. Quando um dia eu tentava amarrá-lo a uma árvore fez uma tal algazarra e foi tão esperto que, se eu não largasse a corda, ele morria estrangulado. Depois, tive que o libertar completamente porque onde estava não chegava à água (...) e a fúria durou-lhe todo o dia. Parava um instante, desfalecido, indignado, espantado como num pesadelo e quase imediatamente retomava a sua magnífica revolta. "Vai morrer, dizia a minha mãe, não vai comer à gamela." Evidentemente, libertei o pássaro e vi-o desaparecer no crepúsculo, não sem pena... (...) Qual não foi o meu espanto, no dia seguinte e nos outros, ao vê-lo às voltas nas paragens. A sua presença obstinada parecia convidar-me a partir em viagem. (...) Um dia dei-me conta que tinha deixado a minha mãe. De resto, ela vivia à lua, andava na magia. (...) Chegado à fronteira quis saber que país era aquele em que ia entrar pela primeira vez. "É o império do Magreb" responderam-me. Ainda nem barba tinha, deixaram-me entrar. "Mais uma vítima da guerra" diziam os funcionários e os soldados..."

Kateb Yacine
Tradução de Luís Varela e Christine Zurbach.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Rachid Boudjedra sobre Kateb Yacine

"Kateb Yacine est le plus grand écrivain algérien (...) J’aurais tant voulu écrire un roman comme Nedjma mais je ne peux pas."

Rachid Boudjedra
(L'Expression, 2010)
 aqui.

"Kateb Yacine ou l'Algérie rêvée", por Kaoutar Harchi

Qantara, nº 83 (Abril de 2012)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Homenagem a Kateb Yacine

Homenagem a Kateb Yacine, nos 50 anos do fim da Guerra da Argélia (1954-1962), dias 27 e 28 de Abril em Roubaix (França).

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A Boca do Lobo, 17 de Outubro de 1961

Povo francês, tu viste tudo
Sim, tudo com os teus olhos.
Viste o nosso sangue correr
Viste a polícia
Espancar os manifestantes
E atirá-los ao Sena.
O rio Sena rubescente
Não parou nos dias seguintes
De vomitar no rosto
Do povo da Comuna
Esses corpos martirizados
Que lembravam aos Parisienses
As suas próprias revoluções
A sua própria resistência.
Povo francês, tu viste tudo
Sim, tudo com os teus olhos,
E agora vais falar?
E agora vais calar-te?


Kateb Yacine
Tradução de Luís Varela

domingo, 22 de abril de 2012

Como governar o burro?

"Nada abala a espessa cólera do oprimido; ele não conta os anos; não distingue os homens, nem os caminhos; o que o leva ao rio, ao repouso, à morte. Como governar o burro? Está destinado às coisas correntes. Mantêm-se neutro e malévolo; não segue o guia; neutraliza-o, comunica-lhe a sua magnanimidade de escravo."

Kateb Yacine
Nedjma
(Tricontinental Editora, 1987)

Le poète comme un boxeur

"O verdadeiro poeta (...) deve mostrar o seu desacordo. Senão se exprime na plenitude, engasga-se. Esta é a sua função. Fazer a revolução no interior da revolução política. Ele é, na perturbação, o perturbador eterno.(...) O poeta é a revolução em estado nú, o próprio movimento da vida."

Kateb Yacine
Le poète comme un boxeur (1994) 
trad. por aqf

sábado, 21 de abril de 2012

Efusões de locomotiva

"O expresso Constantina-Bona tem o sobressalto do centauro, o soluço da sereia, a graça ofegante da máquina com a energia no limite, rastejando e contorcendo-se no joelho da cidade sempre fugidia na sua lascívia, tardando a desfalecer, agarrada pelos cabelos e confundida na ascensão solar, para acolher do alto estas efusões de locomotiva; as carruagens largam passageiros que, quais bichos indecisos depressa devolvidos ao estado de alerta, dormitam; nenhum levanta a cabeça diante do Deus dos pagãos chegado ao seu quotidiano poder. Meio-dia, reflexão de África com falta de sombra inacessível nudez de continente comedor de impérios, planície repleta de vinho e de tabaco; o meio-dia adormece tanto como um templo, submerge o viajante; meio-dia! acrescenta o relógio, na sua opulência sacerdotal, e a hora parece atrasada com a máquina sob a ventilação das palmeiras, e o comboio depressa perde os seus encantos (...)"

Kateb Yacine
Nedjma
(Tricontinental Editora, 1987)