"Banha-te, Nedjma, prometo-te não ceder à tristeza quando o teu encanto se dissolver pois não há nenhum atributo da tua beleza que não me tenha tornado a água cem vezes mais cara; não é a fantasia que me faz sentir este imenso afecto por um caldeirão. Amo cegamente o objecto sem memória em que se disputam os últimos manes dos meus amores."
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Sid Ahmed Agoumi diz poema de Kateb Yacine
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Como um fuso
"Cai-se no alcoolismo, e fazem-se filhos franzinos. Eu cá, ao nascer, era obeso, os turistas tomavam-me nos braços. Não parece um bebe árabe! Que bonito! Mas não tardei a ficar como a minha mãe, magro, magro como um fuso; serve-me para as zaragatas."
Kateb Yacine
Nedjma
(Tricontinental Editora, 1987)
domingo, 10 de junho de 2012
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Um mundo comum
“Os tais berberes que nós hoje arrumamos ali algures no Norte de África (...) ocupavam todo (...) o sul da Península Ibérica. Era a mesma cultura, era a mesma língua, o mesmo espaço, a mesma habitação. (…) Todo este mundo fez parte de um mundo comum. (…) E a gente agora deprecia-os, esquece-os, não percebe que pertencem à nossa estrutura cultural.”
Cláudio Torres
[Ouvido hoje na SIC, nos 25 anos do Prémio Pessoa]
terça-feira, 15 de maio de 2012
Dazzling language
"[Kateb Yacine] can be considered principally as a poet who only uses novelistic and dramatic forms in order to destroy them. This confusion of literary genres is naturally, in this case, a terrorist technique that smashes the characteristic structure of the novel and which creates a dazzling language that blazes in all directions."
Abdelkébir Khatibi
Une ruine et un chatier
"Je crois bien, en effet, que je suis l'homme d'un seul livre. A l'origine, c'est un poème qui s'est transformé en romans et en pièces de théâtre, mais c'est toujours la même œuvre que je laisserai certainement comme je l'ai commencée, c'est-à-dire à la fois une ruine et un chatier."
Kateb Yacine
Em entrevista ao Jeune Afrique, 26 de Março de 1967.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Poète et militant
"en moi, le poète combat le militant et le militant combat le poète."
Kateb Yacine
quinta-feira, 10 de maio de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Mais uma vítima da guerra
CORIFEU - Em todas as grandes cidades há açores engaiolados com as tribos.
ALI - Sim, os velhos coxos ou os seus filhos nascidos na gaiola. Uma triste minoria. Ainda não há muito tempo, a minha mãe ofereceu-me um açorzinho amarrado à pata. Tinha bastante campo de manobra. Quando um dia eu tentava amarrá-lo a uma árvore fez uma tal algazarra e foi tão esperto que, se eu não largasse a corda, ele morria estrangulado. Depois, tive que o libertar completamente porque onde estava não chegava à água (...) e a fúria durou-lhe todo o dia. Parava um instante, desfalecido, indignado, espantado como num pesadelo e quase imediatamente retomava a sua magnífica revolta. "Vai morrer, dizia a minha mãe, não vai comer à gamela." Evidentemente, libertei o pássaro e vi-o desaparecer no crepúsculo, não sem pena... (...) Qual não foi o meu espanto, no dia seguinte e nos outros, ao vê-lo às voltas nas paragens. A sua presença obstinada parecia convidar-me a partir em viagem. (...) Um dia dei-me conta que tinha deixado a minha mãe. De resto, ela vivia à lua, andava na magia. (...) Chegado à fronteira quis saber que país era aquele em que ia entrar pela primeira vez. "É o império do Magreb" responderam-me. Ainda nem barba tinha, deixaram-me entrar. "Mais uma vítima da guerra" diziam os funcionários e os soldados..."
Kateb Yacine
O Pó da Inteligência (Teatro)
Tradução de Luís Varela e Christine Zurbach.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Rachid Boudjedra sobre Kateb Yacine
"Kateb Yacine est le plus grand écrivain algérien (...) J’aurais tant voulu écrire un roman comme Nedjma mais je ne peux pas."
Rachid Boudjedra
(L'Expression, 2010)
aqui.
aqui.
"Kateb Yacine ou l'Algérie rêvée", por Kaoutar Harchi
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| Qantara, nº 83 (Abril de 2012) |
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Kateb Yacine, Albert Camus e Jean Mouhoub Amrouche
Les Lettres Françaises, 7 de Novembro de 2009
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| Para ler clique aqui. |
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sexta-feira, 27 de abril de 2012
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Homenagem a Kateb Yacine
Homenagem a Kateb Yacine, nos 50 anos do fim da Guerra da Argélia (1954-1962), dias 27 e 28 de Abril em Roubaix (França).
segunda-feira, 23 de abril de 2012
A Boca do Lobo, 17 de Outubro de 1961
Povo francês, tu viste tudo
Sim, tudo com os teus olhos.
Viste o nosso sangue correr
Viste a polícia
Espancar os manifestantes
E atirá-los ao Sena.
O rio Sena rubescente
Não parou nos dias seguintes
De vomitar no rosto
Do povo da Comuna
Esses corpos martirizados
Que lembravam aos Parisienses
As suas próprias revoluções
A sua própria resistência.
Povo francês, tu viste tudo
Sim, tudo com os teus olhos,
E agora vais falar?
E agora vais calar-te?
Sim, tudo com os teus olhos.
Viste o nosso sangue correr
Viste a polícia
Espancar os manifestantes
E atirá-los ao Sena.
O rio Sena rubescente
Não parou nos dias seguintes
De vomitar no rosto
Do povo da Comuna
Esses corpos martirizados
Que lembravam aos Parisienses
As suas próprias revoluções
A sua própria resistência.
Povo francês, tu viste tudo
Sim, tudo com os teus olhos,
E agora vais falar?
E agora vais calar-te?
Kateb Yacine
Tradução de Luís Varela
domingo, 22 de abril de 2012
Como governar o burro?
"Nada abala a espessa cólera do oprimido; ele não conta os anos; não distingue os homens, nem os caminhos; o que o leva ao rio, ao repouso, à morte. Como governar o burro? Está destinado às coisas correntes. Mantêm-se neutro e malévolo; não segue o guia; neutraliza-o, comunica-lhe a sua magnanimidade de escravo."
Kateb Yacine
Nedjma
(Tricontinental Editora, 1987)
Le poète comme un boxeur
"O verdadeiro poeta (...) deve mostrar o seu desacordo. Senão se exprime na plenitude, engasga-se. Esta é a sua função. Fazer a revolução no interior da revolução política. Ele é, na perturbação, o perturbador eterno.(...) O poeta é a revolução em estado nú, o próprio movimento da vida."
Kateb Yacine
Le poète comme un boxeur (1994)
trad. por aqf
sábado, 21 de abril de 2012
Efusões de locomotiva
"O expresso Constantina-Bona tem o sobressalto do centauro, o soluço da sereia, a graça ofegante da máquina com a energia no limite, rastejando e contorcendo-se no joelho da cidade sempre fugidia na sua lascívia, tardando a desfalecer, agarrada pelos cabelos e confundida na ascensão solar, para acolher do alto estas efusões de locomotiva; as carruagens largam passageiros que, quais bichos indecisos depressa devolvidos ao estado de alerta, dormitam; nenhum levanta a cabeça diante do Deus dos pagãos chegado ao seu quotidiano poder. Meio-dia, reflexão de África com falta de sombra inacessível nudez de continente comedor de impérios, planície repleta de vinho e de tabaco; o meio-dia adormece tanto como um templo, submerge o viajante; meio-dia! acrescenta o relógio, na sua opulência sacerdotal, e a hora parece atrasada com a máquina sob a ventilação das palmeiras, e o comboio depressa perde os seus encantos (...)"
Kateb Yacine
Nedjma
(Tricontinental Editora, 1987)
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Liberdades com o tempo
"(...) Nedjma foi publicado em plena guerra da Argélia e os leitores franceses não estavam suficientemente preparados para entrar no universo de Kateb Yacine, que era um poeta magnífico e que espantou toda a gente com este romance."
"O Pó da Inteligência" encenação de Luís Varela (1977)
Entre a adesão e a liberdade
"O contacto com escritores e críticos de uma Argélia ainda subsidiária da cultura colonial, mas vivendo a hora do anti-colonialismo militante, foi para mim muito elucidativa: lembro-me por exemplo, do poeta francês Jean Sénac, ou de tantos como ele, desgarrados entre a sua adesão à causa da independência e a liberdade que lhes começava a ser coartada pelos novos senhores no poder. A tal ponto que alguns se tornaram exilados do interior, enquanto outros, mesmo argelinos, como Kateb Yacine, tiveram de desterrar-se, à letra, por não aceitarem vergar-se às injunções ideológicas dominantes."
José Augusto Seabra
Antologia Pessoal vol. IV (2001) p.25
28 de Outubro de 1989
"In that same period, early in March 1989, Kateb Yacine discovers that he his ill. He is in France, he left Paris where he had received the major French prize the year before. His youngest son, [Amazigh Kateb] an adolescent, is with him. He no longer enjoys spending time in Paris: his friend and hostes, the most warmly devoted Jacqueline Arnaud had died the previous winter, practically collapsing in the poet's arms as she served him tea. Yacine plans to settle in Provence to write which amounts to his turning his back on the Algerian land. (...) The 1st of November '89 came: early morning, Ali Zaamound rushed off to the Algiers airport. A special plane, sent by the Algerian authorities, was bringing the body of its greatest poet home. Kateb Yacine had died on the 28th of October in Grenoble of leukemia, which had conquered him in just six months.
Strange coincidence, a first cousin of Yacine's, Mustapha Kateb (who had been the inspiration for one of the heroes of Nedjma and who was a first rate theater organizer of a sort of theater worlds apart from the work of Yacine) had died on the 29th of October in a hospital in Marseilles. So the charter was bringing back the two bodies, cousins who hadn't spoken in years. On this final journey home, a woman in mourning had traveled with the bodies: another cousin, one whose beauty and aura, as a young girl, had been the muse for Kateb Yacine's heroine, the very real Nedjma whom the poet had loved as an adolescent, his first love from which he had never truly recovered (...)."
Assia Djebar
Algerian White (1995) pp.148-149.
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Kateb Yacine e Albert Camus, "irmãos inimigos"
"Meu caro compatriota,
Exilados do mesmo reino, eis-nos agora dois irmãos inimigos, envoltos no orgulho da possessão renunciadora dos que rejeitam com soberba a herança para não terem de a partilhar. Mas eis que essa bela herança se transforma no lugar assombrado onde são assassinadas a própria Família ou a Tribo, consoante os dois gumes do nosso Verbo, no entanto único. Grita-se nas ruínas de Tipasa e de Nadhor. Iremos juntos aplacar o espectro da discórdia, ou será já demasiado tarde? Veremos em Tipasa e Nadhor os coveiros da ONU disfarçados de juízes e depois de leiloeiros? Não espero uma resposta precisa e sobretudo não desejo que a publicidade faça eco nos jornais diários da nossa hipotética coexistência. Se um dia se reunir um Conselho de Família, será certamente sem nós. Mas é urgente (talvez) voltar a pôr em movimento as ondas da Comunicação, com o ar de não lhe tocar que caracteriza os órfãos perante a mãe que nunca morre verdadeiramente.
Fraternalmente.
Exilados do mesmo reino, eis-nos agora dois irmãos inimigos, envoltos no orgulho da possessão renunciadora dos que rejeitam com soberba a herança para não terem de a partilhar. Mas eis que essa bela herança se transforma no lugar assombrado onde são assassinadas a própria Família ou a Tribo, consoante os dois gumes do nosso Verbo, no entanto único. Grita-se nas ruínas de Tipasa e de Nadhor. Iremos juntos aplacar o espectro da discórdia, ou será já demasiado tarde? Veremos em Tipasa e Nadhor os coveiros da ONU disfarçados de juízes e depois de leiloeiros? Não espero uma resposta precisa e sobretudo não desejo que a publicidade faça eco nos jornais diários da nossa hipotética coexistência. Se um dia se reunir um Conselho de Família, será certamente sem nós. Mas é urgente (talvez) voltar a pôr em movimento as ondas da Comunicação, com o ar de não lhe tocar que caracteriza os órfãos perante a mãe que nunca morre verdadeiramente.
Fraternalmente.
Kateb Yacine
missiva a Albert Camus (1957)
trad. por aqf
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No dia 16 de Outubro de 1957, Albert Camus recebe o Prémio Nobel da Literatura. No dia seguinte, chega às suas mãos esta carta de Kateb Yacine, na altura com 28 anos de idade. Camus acabara de publicar O Exílio e o Reino, Kateb Yacine escolhe bem as palavras. A guerra na Argélia estava longe do fim. Era uma tragédia pessoal para ambos, mas Camus não apoiava a independência.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Para disfarçar a perplexidade
"O meu braço esquerdo alongara-se consideravelmente. A ribeira da qual nos encontrávamos elevava-se sobre as pedras, flutuando entre céu e terra. Ouvi os insectos a abrirem caminho na floresta, e julguei mesmo ouvir circular a seiva, aproveitando a noite. Mais ainda, novas ribeiras e árvores estavam prestes a nascer no fundo da terra, forçando-me a prestar a maior atenção às delícias da insónia. (...) Era tarde de mais para reflectir. Sentia subirem-me aos lábios palavras de desafio, que recalquei para não incomodar ninguém. Houve um longo silêncio, cada um de nós tomando um ar irónico para disfarçar a perplexidade."
Kateb Yacine
Nedjma
(Tricontinental Editora, 1987)
A revolução e a poesia
[Depois de ser preso] descobri as duas coisas que me são mais queridas: a revolução e a poesia."
Kateb Yacine
La Nouvel Observateur (1967)
trad. por aqf
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